APRENDER A AMAR SEGUNDO ERICH FROMM

Parte do texto publicado no site A mente é Maravilhosa em

17 de novembro de 2018.

 

“Amar sem saber amar fere a pessoa que amamos”. Esta frase de Thich Nhat Hanh resume uma realidade muito evidente. A maioria de nós não é um mestre nessa arte. Somos, na verdade, aprendizes de uma realidade na qual mergulhamos por acaso e sem saber, cheios de necessidades, mas carentes de ferramentas. No entanto, se às vezes nos limitamos a amar como crianças, e não como adultos, isso se deve sobretudo à nossa cultura.
Somos moldados através de uma série de padrões culturais que estabelecem o amor como uma construção de corantes mágicos e ideais. No nosso tecido social, continua presente esse “amor cortês” da Idade Média, no qual os cavalheiros se apaixonavam pelas damas. Gostamos de pensar que somos vítimas das flechas do cupido, que paixão é o que sentem os eternos amantes de Verona de Shakespeare e que cada um de nós está destinado a alguém por meio do fio vermelho do destino.
Erich Fromm, deixou bem claro em ‘A Arte de Amar’ que poucas dimensões exigem tanta responsabilidade e capacidade de discernimento quanto o amor. Porque amar é uma tarefa de artistas treinados, não apenas de sonhadores descontrolados. Aprender a amar exige prática, domínio e um trabalho contínuo, no qual o esforço não deixa nada ao acaso ou à sorte. 
Portanto, vamos ver alguns dos princípios que Erich Fromm nos apresentou.

O amor em voz ativa

Se há uma coisa que desejamos durante grande parte de nossas vidas é sermos amados. Desejamos ser cuidados, valorizados, apreciados, venerados e validados em tudo o que fazemos, somos ou temos. No entanto, há uma coisa que devemos entender o quanto antes: o amor “na voz passiva” não serve, não é maduro.

O amor não é um lugar de descanso. É um cenário no qual se conjuga o presente na voz ativa. Amamos um ao outro, cuidamos um do outro, nos respeitamos, nos valorizamos, criamos juntos, projetamos em comum. O amar dos bons artistas implicar ter a maestria de quem sabe participar, dar e receber, construir e ser parte ativa de um projeto no qual sempre está presente a mentalidade do crescimento. Nossa eterna preocupação por encontrar a pessoa perfeita.
Aprender a amar implica também estar consciente de outro aspecto. Frequentemente nós nos preocupamos em excesso por não encontrarmos a pessoa ideal que combina com todos os nossos sonhos e desejos. Procuramos o “objeto” do amor sem antes parar para pensar se estamos à altura do próprio amor.
Às vezes estamos tão contagiados por idealismos e construções nutridas pelo romantismo que nos esquecemos do mais importante: o amor exige trabalho, implica saber enfrentar os desafios de um relacionamento.

O amor como necessidade

Aprender a amar implica primeiro saber se desfazer de todas as necessidades. Porque quem busca ter um relacionamento para amenizar suas carências vai encontrar duas coisas: nunca vai se sentir satisfeito e vai levar a outra pessoa a um estado de escravidão permanente.
Erich Fromm nos recorda, que um relacionamento saudável e feliz deve ser, acima de tudo, um vínculo altamente produtivo. Um vínculo no qual cada pessoa superou seus vazios e suas dependências. É extinguir do nosso interior a onipotência narcisista, o desejo de acumular e explorar os outros, para conseguir ser amado sem cargas e sem medos, para podermos nos oferecer plenamente.
“A função da nova sociedade deve ser incentivar em nós a disposição de renunciar a todas as formas de poder e posse. Ao mesmo tempo, deve conseguir fazer com que cada um construa um sentimento de identidade e confiança baseado na fé de quem se é, na necessidade de se relacionar, se interessar, amar, ser solidário com o mudo ao redor, em vez de se basear no desejo de ter, possuir, dominar o mundo e, assim, tornar-se escravo de suas posses”.

Amar é um ato de criatividade

O amor, segundo Erich Fromm, é uma energia. É um impulso que nos incentiva a nos mobilizar, a nos expressar, a criar etc. No entanto (e em relação ao que foi apontado anteriormente), essa força expansiva e criativa somente emerge quando temos nossas necessidades básicas satisfeitas.
Ao mesmo tempo, uma coisa que Fromm destaca em ‘A Arte de Amar’ é que não basta sentir essa energia.   O amor, devemos nos lembrar, não é apenas sentido. É preciso vivê-lo e dar-lhe forma. Porque a verdadeira paixão, aquela que se nutre do sentimento, da maturidade e do equilíbrio, entende que a obra mais bela exige trabalho diário e dedicação.
O amor é como a música, a pintura, a carpintaria, a escrita ou a arquitetura. É preciso compreender a teoria para, posteriormente, ser mestre na prática. Assim como um engenheiro extremamente criativo, nós também conseguiremos enfrentar com imaginação e eficácia cada dificuldade, cada desafio, cada imprevisto no caminho…
Para concluir, aprender a amar segundo Erich Fromm exige deixar de lado muitas das visões infantis que frequentemente nos definem (e que foram incutidas em nós). Devemos parar de conjugar o amor na voz passiva e de enxergá-lo como a faísca que, em um dado momento, une magicamente duas pessoas.
Porque o amor é substância, é corpo e é matéria. Uma matéria-prima com a qual se constrói um bom projeto, o melhor de nossas vidas se assim quisermos e assumirmos a responsabilidade de fazer isso….

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Erich Fromm foi um psicanalista, filósofo e sociólogo alemão. A partir do final da década de 1920, representou um socialismo democrático e humanista. Suas contribuições para a psicanálise, para a psicologia da religião e para a crítica social o estabeleceram como um pensador influente do século XX, embora muitas vezes tenha sido subestimado no mundo acadêmico. Muitos de seus livros entraram para a lista dos mais vendidos, notavelmente A Arte de Amar (1956) e Ter ou Ser (1976). Seus pensamentos também foram amplamente discutidos fora do mundo profissional.

 2020 por Rose Zerbinato